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	<title>Semana de Jornalismo &#187; jornalismo Literário</title>
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		<title>O repórter de três cabeças</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Mar 2011 14:55:23 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[jornalismo Literário]]></category>
		<category><![CDATA[José Castello]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Para encerrar a II Semana de Jornalismo da UFC, o jornalista e professor Sérgio Vilas-Boas fará uma palestra sobre <em>Jornalismo literário e mercado</em> (veja programação <a href="http://www.semanadejornalismo.ufc.br/2011/?page_id=10">aqui</a>). Pensando nisso, Plínio Bortolotti, diretor institucional do Grupo de Comunicação O Povo e um dos debatedores da mesa redonda <em>Jornalismo político: os bastidores do poder na cobertura jornalística</em>, no primeiro dia do evento, mandou uma dica de livro aos amantes do chamado jornalismo narrativo.</p>
<p style="text-align: justify;">A obra “Jornalismo e literatura – a sedução da palavra”, de Gustavo de Castro e Alex Galeno (organizadores), traz  o conto <em>O repórter de três cabeças</em>, de José Castello, um dos mais interessantes sobre os dilemas vividos pelo jornalista no seu dia a dia. Agradecemos a dica e compartilhamos o conto abaixo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O repórter de três cabeças</strong><br />
José Castello</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho 20 anos e acabo de me tornar repórter policial. O chefe da redação, Sr. Azevedo, me convoca para minha primeira reportagem.  Numa favela carioca, moradores ateiam fogo a um homem, acusado de matar a pauladas o filho adolescente. O assassino, com os braços e tórax derretidos pelo fogo, ocupa um leito de hospital público, mas não corre risco de vida. Na favela, o coração destruído, sua mulher vela o filho morto.</p>
<p style="text-align: justify;">Vou primeiro ao morro. É um crime pequeno, um episódio na vida de gente comum. No barraco, encontro apenas um velho Fotógrafo de A Notícia que – com a frieza de um açougueiro experiente – escolhe as imagens mais repugnantes.</p>
<p style="text-align: justify;">“Meu marido é um cachorro”, a mulher grita. “Um bicho!”. Olho o corpo do rapaz, lustroso como um boneco de cera, a cabeça enrolada em bandagens imundas, o rosto borrado por placas roxas. “Ele matou meu filho por nada”, a mulher continua. “Matou como se fosse um rato”.</p>
<p style="text-align: justify;">Encho-me de ódio. Ao chegar ao hospital para ouvir o assassino, pois as normas do jornalismo exigem sempre os dois lados das histórias, trago o espírito arreganhado. Largado em uma enfermaria obscura, o homem parece uma sombra de homem. Uma nódoa na paisagem.</p>
<p style="text-align: justify;">“Por que o sr. fez isso?”, pergunto, mal conseguindo encará-lo. O homem tem os olhos parados, como pérolas sujas esquecidas no fundo de uma gaveta, e não pára de tremer. Insisto: “Por que?”. Ele me olha e diz: “Ele me odiava porque eu sou só um lixeiro.”</p>
<p style="text-align: justify;">Ergo a voz e, em tom de reprimenda, digo que isso não é motivo suficiente para matar. O homem suspira. Depois diz: “Ele roubava meu dinheiro e, enquanto eu carregava lixo, ia para a cama com minha mulher.” Julgo ouvir um ruído vago, mas tenebroso, como se o teto da enfermaria começasse a desabar sobre mim. Não consigo dizer mais nada. Saio.</p>
<p style="text-align: justify;">Na redação, o Sr. Azevedo ordena: “Quero uma história violenta, que tenha início, meio e fim, pois precisamos de manchetes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sento-me para escrever. O esquema clássico do noticiário policial me pede uma narrativa reta, em que haja uma vítima, um assassino monstruoso e uma viúva infeliz. Começo a escrever, mas não posso avançar. Sinto-me tonto. Vou ao banheiro e vomito.</p>
<p style="text-align: justify;">De volta, escrevo uma primeira versão, a mais neutra que posso imaginar, em que os vários pontos de vista se entrecruzam. Ofereço-a ao Sr. Azevedo, Ele lê e diz: “O que é isso, um boletim de ocorrência? Quero uma história coerente, e não um relatório”.</p>
<p style="text-align: justify;">Volto para a máquina e escrevo, agora, três versões da reportagem. Ajo como um repórter que tivesse três cabeças. Na primeira, o homem é um cão danado que mata a pauladas um filho ingênuo e infeliz. Na segunda, é um homem fraco que enlouquece, manipulado pelo filho pervertido e pela mulher incestuosa. Tento uma terceira versão em que pai e filho são inocentes, fantoches nas mãos de uma megera.</p>
<p style="text-align: justify;">As três narrativas não cabem em uma história só e, no entanto, seria assim, na conjunção contraditória das três, que eu estaria mais próximo da verdade. Mas, eu descubro, ela é o que menos importa a meu chefe.</p>
<p style="text-align: justify;">O Sr. Azevedo, com ar agastado, vem me cobrar a reportagem. “Nossa hora estourou”, grita. Fecho os olhos, misturo as três páginas datilografadas, sorteio uma delas e, sem ver o resultado, entrego-a. O Sr. Azevedo lê e diz: “Agora sim a história faz sentido”.</p>
<p style="text-align: justify;">Tomo o ônibus para casa. Levo no bolso as duas versões desprezadas. Amasso-as e jogo pela janela. Deixo que o vento do Aterro do Flamengo bata com força em meu rosto, castigando-me. Tento respirar, ainda sem sucesso, pois é como se uma rolha de decepção me trancasse o peito.</p>
<p style="text-align: justify;">Não tenho coragem no ler o jornal no dia seguinte. Até hoje não sei qual de minhas três versões foi publicada.</p>
<p style="text-align: justify;">-<br />
<strong>Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo (5/8/1997), incluído no texto “Jornalismo, literatura e representação”, de Nanami Sato, no livro “Jornalismo e literatura – a sedução da palavra”, de Gustavo de Castro e Alex Galeno (organizadores). São Paulo, Escrituras, 2002.</strong></p>
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